quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Autor do Mês de Dezembro- Padre António Vieira

Padre António Vieira
(1608-1697)

Um dos homens mais notáveis de Portugal, um dos mestres da nossa língua, um dos primeiros pregadores do seu tempo, um homem cuja inteligência vastíssima abrangia todos os assuntos e resplandecia em todos os campos, o “imperador da língua portuguesa” como lhe chamou Fernando Pessoa.
Missionário
Pregador
Diplomata
Profeta
Escritor


Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros.
Padre António Vieira


Uma das mais influentes personalidades do século XVII…
Nasceu em Lisboa, a 6 de fevereiro de 1608, e aos seis anos partiu com a família para a Baía, no Brasil, onde o pai exercia a função de secretário da Governação. Estudou no colégio jesuíta da Baía e ingressou na Companhia de Jesus, recebendo ordens em 1634, adquirindo rapidamente grande fama como pregador. Em 1641, partiu para Lisboa com o governador, para apresentar ao rei D. João IV a adesão à causa da Restauração. O rei encarregou-o de várias missões diplomáticas na Holanda e em Roma. Não foi bem-sucedido, regressou novamente ao Brasil e dedicou-se à missionação dos índios.
Foi prodigiosa a sua ação como visitador e superior de todas as missões, atividade que o obrigava a permanentes viagens pelo interior do território. Foi o tempo, como ele afirmou, mais feliz da sua vida. Foi, também, um do período muito difícil e perigoso. A evangelização dos índios e a sua proteção ocuparam-no intensamente, mas o seu perfil combativo e enérgico despertou facilmente os rancores dos colonos e dos roceiros. Perante o elevado número de negros e negras que desembarcavam na Baía para serem submetidos à escravidão, Vieira não se calava e o conflito agravou-se. Durante um mês pregou todos os dias (são os sermões conhecidos como Rosa Mística, do Rosário), abordando o tema da escravatura. Os jesuítas foram acusados de obstar ao desenvolvimento económico do Brasil e os ódios atingiram o auge. Assim, em Maio de 1661, os colonos do Maranhão assaltaram a Companhia de Jesus e, logo a seguir, aconteceu o mesmo com a casa dos membros da Ordem em Belém, onde se encontrava António Vieira. Os jesuítas foram insultados, agredidos e aprisionados em várias embarcações, reduzidos à miséria e à fome, tendo sido, por fim, expulsos do território brasileiro. Assim, em setembro de 1661, todos os religiosos, incluindo Vieira, são postos na nau Sacramento e enviados para Lisboa.
Após a morte de D. João IV, a Inquisição acusou-o de professar opiniões heréticas (1662-1667), mas foi absolvido com a subida ao trono de D. Pedro II. Depois de novo e intenso período de trabalho como diplomata em Roma e como pregador, regressou definitivamente à Baía, entregando-se à tarefa de continuar a edição completa dos Sermões iniciada em 1679. Morreu com quase 90 anos de idade. Além dos Sermões (13 tomos publicados entre 1679 e 1699), escreveu Esperanças de Portugal, Clavis Prophetarum e História do Futuro.

A prosa de intervenção…

Como orador e artista da prosa seiscentista, a sua obra – sobretudo os Sermões – anda estritamente ligada ao seu tempo e à sua vida. Considerado o maior orador sacro de Portugal, dominou todo o século XVII pela sua personalidade vigorosa, entregue completamente à luta pelos direitos dos oprimidos e por um Portugal independente.
A sua obra, de que é indissociável a sua intensa ação como homem público, compõe-se de cerca de duzentos sermões, mais de quinhentas cartas e uma série de documentos vários – de política, diplomacia, profecia e religião - onde demonstra uma profunda capacidade de análise e denúncia dos vícios humanos, com grande realismo e inteligência implacável na sua ação moralista.

Do púlpito, interrogou, desafiou, acusou, invocou, apelou, apoiou, afastou, recusou…
Bateu-se até à morte pelos grandes ideais da sua vida: a defesa dos oprimidos, a libertação dos escravos índios do Brasil, a liberdade de crença para os judeus…

Vieira e o V Império

O Padre António Vieira, ao desenvolver o mito do Quinto Império, considerava que, depois dos grandes impérios do passado, chegaria o Império Universal Cristão, o Quinto Império, liderado pelo Rei de Portugal. Em História do Futuro, declarou: "Chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História; o qual se há de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego, o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio". Mais tarde, Fernando Pessoa, na obra Mensagem, anunciou um novo império civilizacional, que, como Vieira, acreditava ser o português.
Com uma construção literária e argumentativa notáveis, os seus sermões revelam uma intensa ligação com a vida pública, o que resulta numa prosa eminentemente funcional, mas que não perde nunca o nível de universalidade necessário a toda a obra de arte perdurável.
Possuidor de uma inteligência poderosíssima, Padre António Vieira arquitetou mundos à medida dos seus sonhos e deixou-nos como legado uma obra que se afirmaria como um dos paradigmas da prosa portuguesa.

Alguns dos seus sermões…
Sermão da Conceição da Virgem Senhora Nossa (1635)
Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640)
Sermão dos Bons Anos (1641)
Sermão do Mandato (1643)
Sermão da Terceira Dominga do Advento (1644)
Sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma (1644)
Sermão do Mandato (1645)
Sermão da Primeira Oitava da Páscoa (1647)
Sermão da Dominga Vigésima-Segunda depois de Pentecostes (1649)
Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650)
Sermão do Mandato (1650)
Sermão de Santo António aos Peixes (1654)
Sermão da Primeira Dominga da Quaresma (1653)
Sermão da Quinta Dominga da Quaresma (1654)
Sermão da Sexagésima (1655)
Sermão do Bom Ladrão (1655)
Sermão da Terceira Dominga da Quaresma (1655)
Sermão de Dia de Ramos (1656)
Sermão da Quarta Dominga da Quaresma (1657)
Sermão da Sexta -Feira da Quaresma (1662)
Sermão da Quarta Dominga da Quaresma (1661)
Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma (1669)
Sermão do Mandato (1670)
Sermão de Quarta-Feira de Cinza (1672)
Sermão da Rainha Santa Isabel (1674)
Sermão da Primeira Dominga do Advento
Sermão da Quarta Dominga do Advento
Sermão do Nascimento do Menino Deus
Sermão da Dominga Décima-Sexta depois de Pentecostes

E, com toda a razão e sabedoria emotiva, Fernando Pessoa consagrou-o definitivamente no poema-livro Mensagem, de exaltação épica e patriótica:

ANTÓNIO VIEIRA
O céu strella o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portugueza,
Foi-nos um céu também.

No immenso espaço seu de meditar,
Constellado de fórma e de visão,
Surge, prenuncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do ethereo.
E’ um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Imperio
Doira as margens do Tejo.

Algumas das suas palavras…
Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro.
in Sermão de Quarta feira de Cinzas
, Roma, 1672


As imagens de escultura fazem-se tirando; as de pintura, pondo: para este tirar é necessário muito desinteresse; para este pôr e acrescentar muita prudência, muita justiça, muita inteireza, muita constância, e outras grandes virtudes, que mais facilmente faltam todas que se acham juntas.
in Sermão da 22ª Dominga de Pentecostes


Quando o lavrador quer plantar de novo em mata brava, mete primeiro o machado, corta, derriba, queima, arranca, alimpa, cava e depois planta e semeia. Quando o arquiteto quer fabricar de novo sobre edifício velho e arruinado, também começa derribando, desfazendo, arrasando e arrancando até os fundamentos, e depois sobre o novo alicerce levanta nova traça e novo edifício. Assim o faz e sempre fez o supremo criador e artífice do mundo, quando quis plantar e edificar de novo.
in História do Futuro


Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos quando fazemos. Nos dias que não fazemos, apenas duramos.


Para falar ao vento bastam palavras. Para falar ao coração, é preciso obras.


Para ensinar é necessário amar e saber, porque quem não ama não quer e quem não sabe não pode.


Toda a vida (ainda das coisas que não têm vida) não é mais que uma união. Uma união de pedras é um edifício; uma união de tábuas é um navio; uma união de homens é um exército. E sem esta união, tudo perde o nome e mais o ser. O edifício sem união: o navio sem união é naufrágio; o exército sem união é despojo, é ruína. Até o homem (cuja vida consiste na união do corpo e da alma) com união é homem, sem união é cadáver.


As suas críticas são intemporais…
A terra continua a estar corrupta...
Os homens exploram-se uns aos outros…

À distância de quatro séculos, as situações de injustiça social prevalecem no mundo.
A terra continua a estar corrupta.

Como é possível que isto aconteça?
Como é possível?

Já pensaste nisto?
Já fizeste algum gesto para contribuíres para a mudança?

Pensa nisso!


Para saberes mais...

alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/vieira.htm
Manoel de Oliveira, Palavra e Utopia:








Documentário “Grandes Livros” – Sermão de Santo António aos Peixes:




terça-feira, 29 de novembro de 2011

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Autor do Mês de Novembro- Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA (1888-1935)

Escola Secundária Raul Proença, escadas do bloco B

Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente – nada, excepto os seus poemas.
Octávio Paz, Fernando Pessoa, o desconhecido de si mesmo.

Não tenho ambições nem desejos,
Ser poeta não é uma ambição minha,
É a minha maneira de estar sozinho.
Alberto Caeiro


Alberto Caeiro, pormenor do mural de José de Almada Negreiros da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na felicidade,
Sentir como quem olha.
Alberto Caeiro

(...) é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito de vida, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir.
Fernando Pessoa

É por ser mais poeta
Que gente que sou louco?
Ou é por ter completa
A noção de ser pouco?
Tudo é verdade e caminho.
Fernando Pessoa


Os três heterónimos, pormenor do mural de José de Almada Negreiros da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.
Ricardo Reis

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo.
Ricardo Reis

Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Álvaro de Campos


Álvaro de Campos, pormenor do mural de José de Almada Negreiros da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me.
Fernando Pessoa


ENFUREÇO-ME. Queria compreender tudo, saber tudo, realizar tudo, dizer tudo, gozar tudo, sofrer tudo, sim, sofrer tudo. Mas nada disso faço, nada, nada. Fico acabrunhado pela ideia daquilo que queria ter, poder, sentir. A minha vida é um sonho imenso. Penso, às vezes, que gostaria de cometer todos os crimes, todos os vícios, todas as acções belas, nobres, grandiosas, beber o belo, o verdadeiro, o bem de um só trago e adormecer em seguida para sempre no seio tranquilo do Nada.
Deixem-me chorar.
CERCA-ME UM VAZIO absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de desconhecidos que não me conhecem.
Sinto frio na alma; não sei com que me agasalhar. Para o frio da alma não há manta nem capa. Quem o sente não se esquece.
Quer isto dizer que não tenho verdadeiros amigos? Não; eu tenho-os; mas não são meus amigos verdadeiros.
Ai daqueles que foram tocados do transcendental e a quem tudo dói por frio, inexpressivo e distante.

NÃO SEI QUEM SOU, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe.
Sinto crenças que não tenho. Elevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.


Sinto-me múltiplo
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única central realidade que não está em nenhum e está em todos.
Como o panteísta se sente onda e astro e flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, individuado por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Auto-conhecimento
I know not what tomorrow will bring...
(últimas palavras do poeta)


Álbum fotográfico...

A sua vasta produção estético-literária...
Embora tenha morrido com quarenta e sete anos apenas, a sua vida caraterizou-se por uma intensa atividade estético-literária de índole muito diversa, geralmente concretizada em ensaios, traduções, poemas, artigos e outros textos, publicados em revistas literárias e jornais.
Após a sua morte, a sua produção literária (em prosa e poesia) foi descoberta (numa arca onde o poeta deixou 27 000 manuscritos) e compilada por várias editoras, sendo dada a conhecer em publicações póstumas.
Mas ainda existem textos por organizar e publicar...

Alguns poemas...

Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa


O Quinto Império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz --
Ter por vida sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa

Nevoeiro <
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!
Valete, Fratres
Fernando Pessoa

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lê em o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.
Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis

Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos

Sou um guardador de rebanhos
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei da verdade e sou feliz.
Alberto Caeiro

Se, depois de eu morrer...
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro

O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, a vida...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos

FERNANDO PESSOA visto pelos outros...
F.P.
De rosto em rosto a ti mesmo procuras
E só encontras a noite por onde entraste
Finalmente nu – a loucura acesa e fria
Iluminando o nada que tanto procuraste.
Eugénio de Andrade

Custa-me imaginar que alguém possa um dia falar melhor de Fernando Pessoa que ele mesmo. Pela simples razão de que foi Pessoa quem descobriu o modo de falar de si, tomando-se sempre por um outro. E como os deuses lhe concederam um olhar imparcial como a neve, o retrato que nos devolve do fundo do seu próprio espelho brilha no escuro como uma lâmina.
Eduardo Lourenço

Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que fostes como as ervas não colhidas.
Sophia de Mello Breyner Andresen

FERNANDO PESSOA
Vem ver agora o meu país que já
não tem Camões nem Índias para achar
só tem Pessoa e o império que não há
sentado à mesa como em alto mar.
A viagem que faz é só por dentro
e escreviver-se a única aventura.
No pensamento é que lhe dá o vento
ele é sozinho uma literatura.
Eis vida vidinha cega e surda
ditadura do não do só do pouco.
Ser homem (diz Pessoa) é ser-se louco.
Heterónimo de si na hora absurda
viajando no sentir escreve sentado.
E é Pessoa: “futuro do passado”.
Manuel Alegre

FERNANDO PESSOA
Oculto no seu corpo e no seu nome
(Aranha que negava a própria teia
Que tecia),
Poeta da Poesia
Sibilina e cauta,
Foi o vidente filho universal
Dum futuro-presente Portugal
Outra vez trovador e argonauta.
Miguel Torga

À MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA
Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão —
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida — esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
— Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga; as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver —
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me: transformemos
A nossa natural angústia de pensar —
Num cântico de sonho! e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!
António Botto


Escola Secundária Raul Proença, escadas do Bloco B

GRANDES PORTUGUESES-FERNANDO PESSOA








Para saber mais:
http://multipessoa.net/
http://purl.pt/1000/1/alberto-caeiro/poemas_inconjuntos/poemas-inconjuntos-i.html
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233
http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital- camoes/doc_details.html?aut=2065(este link permite fazer o download de algumas obras de Fernando Pessoa)
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/pessoa.htm

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tomas Tranströmer- Prémio Nobel da Literatura

"Tomas Tranströmer escreve sobre a morte, a história, a memória e é conhecido pelas suas metáforas. É um poeta que tem uma produção pequena, "não é prolixo", disse no final do anúncio o secretário da Academia, o historiador Peter Englund, embora esteja traduzido em várias línguas. Em Portugal, Tranströmer tem poemas publicados em duas antologias, uma delas chama-se "Vinte e um poetas suecos" (Vega ,1987).

Tomas Tranströmer, 80 anos, psicólogo de formação, sofreu um AVC em 1990. Por isso perdeu as faculdades motoras e não consegue falar. Peter Englund disse à televisão sueca que falou com o laureado e ele se mostrou surpreendido pelo prémio. "Ele estava a escutar música", acrescentou o secretário da Academia. O Prémio Nobel da Literatura 2011 vive numa ilha e depois de ter ficado doente publicou três obras.

Desde 1973 que Tomas Tranströmer, que é o poeta sueco mais traduzido no mundo e recebeu o Prémio Literário do Conselho Nórdico em 1990, era candidato ao Nobel. Há 40anos que um autor sueco não recebia este prémio.

O poeta e tradutor Vasco Graça Moura disse hoje à agência Lusa que a poesia do autor sueco “tem uma grande força lírica e preocupação social” e considerou-o "um Prémio Nobel muito merecido”. “Ele é muito importante e é o maior poeta sueco vivo”, afirmou. Sobre a obra de Tranströmer, o escritor português sublinhou “a grande força de utilização das imagens, com uma faceta um pouco surrealista”. Vasco Graça Moura traduziu vários poemas de Tranströmer entre eles um sobre Lisboa, “Alfama”, que se encontra na obra “21 poetas suecos”.

Nas suas várias antologias, "é bem visível como ao longo de décadas ele tem vindo a apurar a linguagem poética com uma genialidade com que poucos são dotados". Em Tranströmer, os poemas "parecem suportados por uma estranha justaposição de forças primevas e contrárias; movimento e mudança, liberdade e controlo do discurso, natureza e influência humana, tudo isto faz parte das suas paisagens poéticas, que se localizam por vezes mais perto do pesadelo do que do sonho".

Num poema publicado em 1966, e editado em português no livro “21 Poetas Suecos”, Tomas Tranströmer oferece um olhar sobre Lisboa.



"Lisboa", nas palavras do novo Nobel da Literatura Lisboa

No bairro de Alfama os elétricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

Tomas Tranströmer

Tradução de Vasco Graça Moura

Adaptado de http://www.publico.pt/Cultura/tomas-transtromer-e-o-premio-nobel-da-literatura--1515270 [consul. em 06-10-2011]

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Autor do Mês de Outubro- António Gedeão



Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nasceu a 24 de novembro de 1906, na freguesia da Sé, em Lisboa. Desde cedo, tomou contato com a literatura, através das leituras que a sua mãe lhe fazia, conhecendo, deste modo, os mestres - Camões, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Cesário Verde.
Aos 5 anos escreve os primeiros poemas. A par desta inclinação flagrante para as letras, quando entra para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contato com as ciências, despertando nele um novo interesse – o mundo das ciências que se vai intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu. Este fator será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, era extremamente pragmático e sentia-se atraído pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, acontece e, assim, enquanto Rómulo de Carvalho estuda Ciências Fisico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, as palavras ficam guardadas para quando, mais tarde, surgir alguém que dará pelo nome de António Gedeão.
Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na Faculdade de Letras do Porto, prenunciando assim a sua atividade principal durante 40 anos – professor e pedagogo.
Começando por estagiar no liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do liceu Pedro Nunes. Para ele, ensinar era uma paixão, afirmando, sem hesitar, que: “Ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria, mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação”. Assim, além da colaboração como co-director da Gazeta de Física a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusive, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a Física e a Química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através da colecção Ciência para gente nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um caráter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.
A dedicação à ciência e à sua divulgação não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive, trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.
Apesar da intensa atividade científica, não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destruí-la. Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento perpétuo. No entanto, este surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou. A obra
é bem recebida pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e, depois, no ensaio e na ficção.
O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino, em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal, decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura, é convidado para lecionar na Universidade, mas declina o convite.
Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes, dedica-se por inteiro à investigação, publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo de morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da referida Academia, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.
Quando completa 90 anos de idade, a sua vida é alvo de uma homenagem a nível nacional. O professor, investigador, pedagogo e historiador da ciência, bem como o poeta são reconhecidos publicamente por personalidades da política, da ciência, das letras e da música.
Infelizmente, a 19 de Fevereiro de 1997, a morte leva-nos Rómulo de Carvalho. Gedeão, esse já tinha morrido alguns anos antes, aquando da publicação de Poemas póstumos e Novos poemas póstumos.










As ciências e a poesia de mãos dadasNos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" António Gedeão, provinham da mesma fonte e se completavam mutuamente.

POEMA PARA GALILEO
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Oficio.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria ...
Eu sei ... Eu sei ...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

Rómulo de Carvalho diz este poema de António Gedeão:







MÁQUINA DO MUNDO

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

AURORA BOREAL

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

Uma poesia de intervenção, de lucidez e de sonhos…
A poesia de António Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade. É deste modo que Pedra Filosofal, musicada por Manuel Freire, se torna num hino à liberdade e ao sonho. E, mais tarde, em 1972, José Nisa compõe doze músicas com base em poemas de Gedeão e produz o álbum Fala do homem nascido.

PEDRA FILOSOFAL

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto- forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

Podemos acompanhar Manuel Freire que canta este poema:



FALA DO HOMEM NASCIDO

(Chega à boca da cena, e diz:)

Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

Para ouvir o poema cantado por Adriano Correia de Oliveira:


LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu- me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

Para saber mais, podemos acompanhar o documentário sobre Rómulo de Carvalho emitido pela RTP2:



Bibliografia do Autor


Obra Literária


Poesia

Movimento Perpétuo, 1956
Teatro do Mundo, 1958
Declaração de Amor, 1959
Máquina de Fogo, 1961
Poesias Completas, 1964
Linhas de Força, 1967
Soneto, 1980
Poema para Galileu, 1982
Poemas Póstumos, 1984
Poemas dos textos, 1985
Novos Poemas Póstumos, 1990

Ficção



A poltrona e outras novelas, 1973



Teatro



RTX 78/24, 1978
História Breve da Lua, 1981
Ensaio
O Sentimento Científico em Bocage
, 1965
Ay Flores, Ay flores do verde pino, 1975

Obra Científica



Carácter didático e pedagógico



"Regras de notação e nomenclatura química" (artigo), 1950
"Considerações sobre o ensino elementar da Física" (artigo), 1952
Compêndio de Química para o 3º Ciclo, 1953
"Experiências escolares sobre tensão superficial dos líquidos e sobre lâminas da solução de sabão" (artigo), 1957
"Guias de trabalhos práticos de Química" [3º Ciclo], 1957
"Acerca do número de imagens dadas pelos espelhos planos inclinados entre si" (artigo), 1959
"A física como objecto de ensino" (artigo), 1959
Problemas de Física para o 3º Ciclo do Ensino Liceal, I volume, 1959
"Considerações sobre o princípio de Arquimedes" (artigo), 1961
"Novas maneiras de trabalhar com os tubos de Torricelli" (artigo), 1962
"Novo sistema de unidades físicas" (artigo), 1962
"Novo dispositivo para o estudo experimental das leis de reflexão da luz" (artigo), 1963
"Sobre os compêndios universitários exigidos pela Reforma Pombalina" (artigo), 1963
"O ensino elementar da Cinemática por meio de gráficos" (artigo), 1964
"Teoria e prática da ponte de Wheatstone" (artigo), 1964
"La formation du professeur de physique" (artigo), 1965
"Ciências da Natureza", 1974
"Aditamento ao guia de trabalhos práticos de Química", 1975

Divulgação científica



Colecção Ciência para Gente Nova
Ciência Hermética, 1947
Embalsamento Egípcio, 1948
"Sr. Tompkins explora o átomo", 1956
Que é a física?, 1959
A Física para o Povo, 1968
A Descoberta do Mundo da Física, 1979
A Experiência Científica, 1979
A Natureza Corpuscular da Matéria, 1979
Moléculas, Átomos e Iões, 1979
A Energia, 1980
A Estrutura Cristalina, 1980
As Forças, 1980
As Reacções Químicas, 1980
O Peso e a Massa, 1980
A Composição do Ar, 1982
A Electricidade Estática, 1982
A Pressão Atmosférica, 1982
A Corrente Eléctrica, 1983
A Electrónica, 1983
Magnetismo e Electromagnetismo, 1983
A Energia Radiante, 1985
A Radioactividade, 1985
Ondas e Corpúsculos,1985

Investigação histórica





"Ferreira da Silva, Homenagem da Ciência e de pensamento 1853-1923 (artigo)", 1953
"A pretensa descoberta da lei das acções magnéticas por Dalla Bella em 1781 na Universidade de Coimbra" (artigo), 1954
"Presença de Descartes" (artigo), 1950
"No primeiro centenário de Lorentz" (artigo), 1953
"Portugal nas 'Philosophical Transactions' nos séculos XVII e XVIII" (artigo), 1956
"Albert Einstein (1879-1955)" (artigo), 1956
"Joaquim José dos Reis, construtor das máquinas de física do Museu Pombalino da Universidade de Coimbra" (artigo), 1958
"História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa" [1765-1772], 1959
"Posição histórica de invenção do nónio de Pedro Nunes" (artigo), 1960
"Homenagem a Pascal, 3º centenário" (artigo), 1962
"Apontamentos sobre Martinho de Mendonça de Pina e de Proença [1693-1742]" (artigo), 1963
"Leonis de pina e Mendonça, Matemático Português do século XVII?" (artigo), 1964
"Breve desenho de educação de um menino Nobre" (artigo), 1965
"Relações científicas do astrónomo francês Joseph-Nicolas de L'Isle com Portugal" (artigo), 1967
"A física na Reforma Pombalina" (artigo), 1968
"História do gabinete de Física da Universidade de Coimbra [1772-1790] - desde a sua fundação em 1772 até ao Jubileu do Prof. Giovani António Dalla Bella", 1978
"Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII", 1979
"A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências da Lisboa nos Séculos XVIII e XIX", 1981
"A Física Experimental em Portugal no Século XVIII", 1982
"A Astronomia em Portugal no Século XVIII", 1985
"História do Ensino em Portugal, desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano", 1986
"O Texto Poético Como Documento Social", 1994

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CHEGASTE À TUA NOVA ESCOLA!

Cecilia Débora



Na Biblioteca da Raul Proença encontras muitos recursos e uma equipa de pessoas que quer ajudar-te a ter sucesso nas tuas aprendizagens.

Conta CONNOSCO!
BOM ANO LECTIVO!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Autor de Mês de Maio- Luísa Fortes da Cunha


Nasceu em Vila Franca de Xira, no dia 13 de Novembro de 1959.
Licenciada em Educação Física pelo Instituto Superior de Educação Física de Lisboa (1987), recebeu uma bolsa de estudo do Conselho da Europa – Divisão de Educação, Cultura e Desporto, em 1990, com estágio em Estrasburgo. Concluiu o Mestrado em Gestão da Formação Desportiva em 1998, pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa e Pós-Graduação em Educação Especial pela Universidade Lusófona. Autora de inúmeras publicações científicas e artigos sobre segurança desportiva infantil, Luísa Fortes da Cunha estreou-se na literatura infanto-juvenil com Teodora e o Segredo da Esfinge, livro que atingiu um sucesso de popularidade entre os jovens e que em apenas 3 meses após sua publicação, entrou em 2ª edição.
( in http://www.luisafortescunha.blogspot.com/ )


Bibliografia:


• 2002: Teodora e o Segredo da Esfinge
• 2002: Teodora e a Poção Secreta
• 2003: Teodora e os Três Potes Mágicos
• 2003: Teodora e o Livro dos Feitiços
• 2004: Teodora e o Caldeirão Sagrado
• 2004: Teodora e as estátuas Misteriosas
• 2005: Teodora e a Ilha Invisível
• 2006: Teodora e o Relógio Mágico
• 2007: Teodora e os Anéis Lendários
• 2007: Teodora e o Mistério do Vulcão
• 2008: Teodora e o Segredo do Manuscrito Chinês
• 2010: Teodora e a Pedra de Âmbar
• 2011: Teodora e a Espada Lendária




domingo, 27 de março de 2011

Autor do Mês de Março - Hélia Correia

Escritora portuguesa, nascida em fevereiro de 1949, licenciada em Filologia Românica e professora de Português do ensino secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético.

Na sua ficção, conflui o reatar de uma herança literária que impõe certa linearidade à escrita romanesca com a assimilação de traços da narrativa contemporânea que vão de um Gabriel García Márquez ou Alex Carpentier até à novelística de Agustina Bessa-Luís, numa tendência para surpreender o sobrenatural no quotidiano da vida provinciana e burguesa, ou para transpor para a escrita romanesca o plano em que a dimensão social das relações humanas se cruza com a religiosidade, com a superstição e até com o irracional. Nos seus primeiros romances, predomina como tema a ascensão social em meio rural, protagonizada por personagens contraditórias nos seus atos, movidas por instintos e crenças, e cujo percurso acaba por pôr em causa uma realidade que se revela frustrante relativamente às suas expectativas. Sobressai ainda no estilo de Hélia Correia a atenção ao poder encantatório da palavra oral, numa escrita que parece contaminada quer pela palavra poética, quer pela tradição do conto popular.
Estreou-se na poesia, em 1981, com O Separar das Águas e O Número dos Vivos em 1982. A novela Montedemo, encenada pelo grupo O Bando, deu à autora uma certa notoriedade. Aliás, Hélia Correia revelou, desde cedo, o gosto pelo teatro e pela Grécia clássica, o que a levou a representar em Édipo Rei e a escrever Perdição, levadas à cena, em 1993, pela Comuna. Escreveu também Florbela, em 1991, que viria a ser encenada pelo grupo Maizum. Destacam-se ainda na sua produção os romances Casa Eterna e Soma, e, na poesia, A Pequena Morte/Esse Eterno Conto.
Recebeu em 2002 o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela sua obra Lillias Fraser, e em 2006 o Prémio Máxima de Literatura, pela obra Bastardia.

Bibliografia: Papagaios de Natal e Outros Contos, s/l, 1977; Villa Celeste: Novela Ingénua, Lisboa, 1985; O Separar das Águas, Lisboa, 1981; O Número dos Vivos, Lisboa, 1982; Montedemo, Lisboa, 1983; Soma, Lisboa, 1987; A Fenda Erótica, Lisboa, 1988; A Luz de Newton, Lisboa, 1988; A Casa Eterna, Lisboa, 1991; Insânia, Lisboa, 1996; Perdição: Exercício sobre Antígona, Lisboa, 1991; A Pequena Morte, Lisboa, 1986

(In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-02-22].
Disponível na www: )

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(2010)

A história deste magnífico romance – sem dúvida um dos melhores da literatura portuguesa neste início de século – começa por ser a história de uma fascinação. A fascinação de Hélia Correia por Elizabeth Siddal (1829-1862), uma das musas dos pintores Pré-Rafaelitas, para quem posou em quadros célebres – como Ofélia, de John Everett Millais; ou Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti. Hélia aproximou-se de Lizzie pelo lado da realidade factual, biográfica. Leu todos os livros escritos sobre a modelo (e são muitos, tantos que chegam «para encher uma estante»), seguiu os seus passos, tocou em objectos um dia tocados pelas suas mãos, esteve até na cripta em que a enterraram duas vezes (no cemitério de Highgate). Uma aproximação obsessiva, digna de um doppelgänger. «Nada dela me é estranho», escreve Hélia. E pressente-se que não há na frase o mínimo exagero.
Ao contrário dos biógrafos oficiais, porém, a romancista não tem os «pulsos amarrados» pela estrita objectividade do que aconteceu efectivamente a Lizzie e às dezenas de pessoas concretas (artistas, patronos, familiares, amigas protectoras) com que se foi cruzando. Aqui, a avalanche documental é só um ponto de partida, o primeiro degrau. O resto é ficção em estado puro, um instrumento de vertigem que talvez permita compreender, como que por instinto, a verdade daquela figura feminina que existiu fora do tempo, corpo destinado a uma morbidez sublime e movido por «uma espécie de impulso para as trevas». Com a sua cabeleira ruiva flamejante, a magreza assexuada, a palidez de fantasma, a arrogância dissuasora, uma espécie de culto da doença, ela foi sempre «aquela coisa que fugia, menos uma mulher que uma ilusão».
Na verdade, Lizzie só não foge de Dante Gabriel Rossetti, esse génio impulsivo com «vocação para a rebeldia» e «perante quem todos os outros deviam inclinar-se, contemplando». Num «mundo intensamente deformado pela beleza dos destinos trágicos», eles estão condenados a convergir, consumidos por uma «energia negra» que desfoca tudo à volta: «Alguma coisa os atirara um contra o outro e, a cercá-los, estava a dança de uma fera». O que
Adoecer capta, com extraordinária veemência expressiva e uma intensidade aforística digna de Agustina Bessa-Luís, é o carácter único desta relação que recupera o «mito do eterno reencontro dos amantes» (Rossetti projectava em Lizzie a Beatriz do Dante medieval) e o modo como este amor, por não ter moldura que o enquadrasse, perturbou e assustou a rígida sociedade vitoriana.
Com uma certa indisciplina formal, o romance mostra-nos o século XIX inglês em todo o seu esplendor e negrume. Assistimos ao apogeu e declínio da irmandade Pré-Rafaelita, à acção discreta das primeiras feministas e à acção nada discreta de Florence Nightingale, ao magistério do gosto exercido por John Ruskin e à influência artística de grandes escritores, como Lord Tennyson, Algernon Swinburne, Robert Browning ou Charles Dodgson (Lewis Carroll). Contudo, o foco nunca se afasta muito de Lizzie e da sua trajectória para a morte, um percurso que provoca todo o tipo de distorções e desajustes na atmosfera, como se ela fosse um corpo celeste que emite uma radiação maligna.
Em alguns momentos, a excessiva nitidez dos detalhes pode cansar o leitor, desorientá-lo. Mas esta desmesura a que temos de nos ir acomodando em nada belisca a perfeição do livro, antes a sustenta. Mais do que qualquer outra coisa,
Adoecer é um prodígio de linguagem, escrito por uma ficcionista em estado de graça.

(in http://bibliotecariodebabel.com/criticas/a-beleza-dos-destinos-tragicos/)

(Ofélia, de John Everett Millais)

(Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti)